(entrevista concedida a DESTAK PORTUGAL em Novembro de 2017)
Desde logo, vale a pena referir que também a Kate Beckinsale esteve quase para não estar aqui. Entre nós. A fazer filmes. A dar esperança no seu destino nato de estrela. Também ela quase ficou com a vida destruída pelo produtor predatório Harvey Weinstein. Tinha 17 anos. Mas não vamos falar nisso.
A sobrevivente – dona de uma daquelas estruturas físicas que já lhe permitiu fazer de Ava Gardner num filme de Martin Scorsese – regressa esta semana mais forte que nunca. A belíssima senhora de Londres continua a mostrar que a sinuosidade continua mágica em estilo antigo de mulher fatal, radiante.
Desta vez aparece a fazer de Johanna, a mulher terrena na cidade grande. É ela, toda ela, que um rapazinho saído da universidade (e sem saber o que fazer à vida) encontra na companhia do pai.
O romance sincero de The Only Living Boy in New York, um filme cheio de gente com várias falhas morais, inclui ainda dois colossos: Jeff Bridges e Pierce Brosnan. Kate, segura, serpenteia sensata pela trama, recordando que, como sempre, está ali para ensinar homens de todas as idades. Incluindo graduados. O resto espraia-se por um ecrã glorioso em que ela é apanhada entre a lua e Nova Iorque.
Que vestido lindo e sedutor. Quem o desenhou?
Uma criadora chamada Johanna. Hoje fiz questão de usar uma coisa desenhada por alguém com o nome que a minha personagem tem neste filme. Vende através da marca privada Johanna Ortiz.
Gostei que, ao longo da história que se conta neste seu último filme, as pessoas estejam sempre a admitir os seus erros à nossa frente. A Johanna, por exemplo, não está ali para enganar ninguém. Ela não mente. Que viu no guião original?
O que mais gostei na história foi isso mesmo: o que nos é pedido acaba por ser bastante simples - que acompanhemos o percurso de outros seres humanos como nós. A grande facilidade, hoje em dia, é a de apresentar as coisas em apenas dois tons: preto e branco. Pelo contrário, o que temos no filme são seres humanos imperfeitos, a cometer erros mas, mesmo assim, capazes de ter uma relação de verdade e honestidade com aqueles que lhes são mais queridos. São aquilo a que chamaríamos indivíduos decentes. Junte-se a isso que, de uma maneira ou de outra, todos os intervenientes na história estão a operar sob o peso de uma grande crise interna. Olhamos para aquilo, para cada uma das situações, e garanto que há mil e uma perspetivas morais sobre o assunto. Cada pessoal julga por si, de forma diferente.
Que devemos deduzir desse exercício, entre outras coisas?
Que somos, de uma maneira geral, criaturas que vamos improvisando à medida que a vida evolui. Damos encontrões na vida, cometemos erros, vamos por aí com aspeto mais ou menos desastrado. Mas não deixamos de ter ali seres humanos. O problema está em que, por vezes, é muito complicado ser humano. Depois há o elemento de surpresa, que nenhuma pessoa pode prever: a vida privada que os outros nos trazem. Repare, por exemplo, na quantidade de segredos que existem no seio daquela família, entre pai e filho. Ela não sabia que o tecido familiar iria estar tão pejado de buracos.
O realizador pediu-lhe, sobretudo, que personificasse qual faceta do problema?
A força dela vem muito das suas qualidades pessoas. Não faz esforço. Sem querer, causa uma situação de causa e efeito que permite que a verdade seja exposta. É ela quem permite as grandes revelações. Não fazia tenções disso. Mas aconteceu. Ora bem, foi isso tudo que tanto eu como o realizador vimos nesta personagem. Sentimos sempre um grande afeto por ela porque iria ser ela a luz ao longo da viagem, na escuridão.
Gosto tanto da canção original dos Simon and Garfunkel que deu título ao filme. Qual seria, para si, a canção que melhor ilustra a sua vida, aquela á qual regressa com regularidade?
A minha canção preferida muda todos os dias. De certeza que tenho uma mão cheia de músicas, se vamos a falar de letras e modulações que ilustram as várias fases de uma vida. Mas o que interessa é isto: sempre que me fazem essa pergunta a minha tendência é responder que dou comigo, frequentemente, a regressar ao 19th Nervous Breakdown [dos The Rolling Stones]. Mas isso é apenas porque tenho um desses cérebros. Daqueles que me dá sempre a resposta mais despropositada quando me sinto em apuros. Quem me dera que minha canção favorita fosse uma dos Simon and Garfunkel. Ou Dylan ou Bowie.
Amei a maneira como este filme mostra a vida de todos os dias que se pode viver em Nova Iorque. A cidade é uma presença tão enorme nesta história. Que relação tem com ela?
O primeiro filme que fiz nos Estados Unidos, The Last Days of Disco, foi filmado em Nova Iorque. Andei, durante meses, tão aterrorizada com a ideia de abandonar a minha família e os meus amigos. Nova Iorque era uma daquelas cidades que só conhecia dos filmes, algo que me amedrontava. Mas adorei. Diverti-me imenso, fiz amigos para a vida. Voltei à cidade anos mais tarde, quando fiz o Serendipity, com o John Cusack. A madrinha dos meus filhos vive lá. Eu mesma vivi uns tempos em Nova Iorque, quando a minha filha Lily era bebé. Foi em Nova Iorque que ela aprendeu a andar. E foi em Nova Iorque que disse as primeiras palavras. A cidade também tem para mim esse encanto. Muito especial. Foi onde aprendi a ser mãe.























































































































































































































































































































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